
A decisão da Moody’s Ratings de retirar todas as classificações de risco do Banco de Brasília (BRB) caiu como um alerta vermelho no mercado financeiro e reacendeu questionamentos sobre a gestão do Governo de Brasília – Distrito Federal (GDF), controlador da instituição. Em linguagem simples: a agência decidiu parar de avaliar o BRB porque o nível de incerteza sobre a saúde e a governança do banco cresceu demais; algo raro e extremamente preocupante.
A retirada de rating não é um procedimento corriqueiro. Diferente de um rebaixamento, que indica deterioração das condições financeiras, a retirada significa que a Moody’s não dispõe mais de confiança suficiente para manter qualquer avaliação sobre o banco, nem boa, nem ruim. É como um professor que devolve a prova em branco e diz: “Não tenho dados suficientes para dar nota.” No mercado financeiro, isso costuma ser mais grave do que uma nota zero.
O movimento veio após semanas de turbulência envolvendo a gestão do BRB, que enfrenta questionamentos sobre processos internos de análise de crédito e governança, sobretudo após a polêmica compra de carteiras do extinto Banco Master. O caso acendeu preocupações técnicas sobre exposição a inadimplência e sobre a capacidade do banco de medir, precificar e controlar riscos, algo essencial para qualquer instituição financeira.

A Moody’s não foi a única a se afastar. Poucos dias antes, a Fitch Ratings havia rebaixado o BRB para níveis considerados “grau especulativo” e mantido a instituição em “observação negativa”. Na prática, isso significa que o BRB passou a ser visto como um banco mais arriscado e sujeito a novos problemas. A Fitch também retirou o chamado “suporte institucional”, a expectativa de que, por ser um banco estatal, teria proteção automática do governo em momentos de crise.
O denominador comum entre as duas agências é claro: falta de confiança. Quando o mercado perde confiança, o dinheiro fica mais caro, os parceiros diminuem e os investimentos recuam.
Para o cidadão comum, o impacto é mais simples de entender do que parece. Sem rating, o BRB tende a ter mais dificuldade para captar recursos, financiar projetos, levantar dinheiro no mercado e até fechar parcerias estratégicas. Isso pode limitar a capacidade do banco de cumprir com eficiência algumas das funções que o GDF costuma atribuir a ele: crédito imobiliário regional, operações de fomento e programas sociais bancarizados.
A situação também expõe o próprio governo local. Como acionista majoritário, o GDF era responsável por zelar pela governança e pelo controle de riscos do banco e, agora, vê o desgaste e as decisões técnicas recaírem sobre sua administração. A crise do BRB, portanto, não é apenas financeira: é de confiança na capacidade de gestão do governo sobre sua principal instituição financeira.
O episódio coloca o BRB e o GDF no centro de um debate que deveria ser encarado com transparência: até que ponto decisões políticas têm contaminado a gestão de um banco público? Quem responde pelos erros quando agências internacionais, que vivem de medir risco, resolvem simplesmente parar de medir?
A Moody’s não retirou o rating por acaso. Retirou porque viu risco demais. Quando essa percepção vem de quem acompanha números, balanços e solvência no mundo inteiro, é um sinal de que o problema já extrapolou os limites técnicos: tornou-se um problema de gestão.
NR: Sucateamento
Sucatear uma empresa significa deixá-la deteriorar de forma deliberada, seja por má gestão, desinvestimento sistemático, retirada de recursos, falta de manutenção, atrasos em contratos ou abandono operacional, até que sua situação financeira e estrutural se agrave a ponto de justificar uma venda a preço muito inferior ao seu valor real.
Em alguns contextos, especialmente no setor público, essa estratégia costuma aparecer como:
- Sucateamento proposital
- Deterioração programada
- Descapitalização deliberada
- Gestão para inviabilizar (expressão comum em análises de políticas públicas)
No mercado privado, quando há intenção de adquirir barato para depois reestruturar e lucrar, o termo próximo é:
- “Distressed acquisition” (compra de empresa em dificuldade)
- “Asset stripping” (comprar barato e desmontar para vender ativos separadamente)
No contexto brasileiro e no debate público, o termo mais direto, reconhecido e utilizado é sucateamento, e qualquer semelhança não é mera coincidência.


