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sábado, abril 4, 2026

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Burrice selada na brasa

Marcos Machado

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O que inicialmente poderia ser descartado como mais uma polêmica efêmera de redes sociais mostra, na verdade, um processo mais consistente e preocupante: a tentativa recorrente de alterar, diluir ou substituir símbolos coletivos que, até então, funcionavam como referências comuns de identidade.

A recente proposta atribuída à Nike, envolvendo a possível retirada do nome “Brasil” do uniforme da seleção, é um exemplo. Não se trata de uma simples escolha estética ou de marketing esportivo. O uniforme da seleção brasileira é mais do que um produto: é um dos poucos elementos simbólicos capazes de gerar identificação imediata em um país marcado por embates políticos, sociais e culturais. Mexer nesse tipo de símbolo não é neutro — é uma decisão carregada de significado.

A literatura já tratou desse mecanismo de forma precisa. No livro 1984, de George Orwell, a manipulação da linguagem e dos símbolos aparece como instrumento central de controle social. Ao reduzir vocabulários, alterar significados e eliminar referências tradicionais, o regime fictício descrito no livro não apenas controlava o discurso, mas limitava o próprio pensamento. A lógica é simples: ao empobrecer os símbolos, empobrece-se também a capacidade de interpretação da realidade.

No mundo contemporâneo, esse processo não ocorre de forma explícita ou autoritária, mas sim por meio de intervenções graduais, frequentemente apresentadas como modernização, inclusão ou atualização cultural. Antes de alcançar símbolos maiores, como nomes nacionais ou representações oficiais, essas mudanças costumam ser testadas no campo da linguagem. Expressões como “todos e todas”, por exemplo, surgem como tentativas de reformulação artificial de estruturas consolidadas do idioma. Embora defendidas sob o argumento da inclusão, acabam por evidenciar um esforço deliberado de reconfiguração da comunicação cotidiana.

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Esse padrão não é isolado. Episódios recentes envolvendo marcas mostram uma insistência em associar produtos a agendas ideológicas, mesmo diante de rejeição significativa do público. O caso da Havaianas, que enfrentou críticas ao apostar em campanhas com forte viés político-cultural, ilustra bem esse movimento. O problema, ali, não era o produto em si, mas a tentativa de transformar um item popular em veículo de uma mensagem percebida como desconectada — ou até conflitante — com os valores de grande parte dos consumidores.

A repetição desse tipo de estratégia é um erro de cálculo ou insistência deliberada? A reação negativa do público não é inédita, tampouco imprevisível. Ainda assim, iniciativas semelhantes continuam sendo propostas, como se houvesse uma convicção de que a transformação cultural deve avançar independentemente da aceitação popular.

O futebol é quase irrelevante. Como muitos, há quem não acompanhe jogos, não torça e não veja grande significado no esporte em si. Mas o ponto central não está no futebol, e sim no símbolo que o envolve. A seleção brasileira, goste-se ou não dela, ainda representa uma das poucas imagens de unidade nacional reconhecidas dentro e fora do país. Alterar seus elementos mais básicos, como o nome do próprio país, não pode ser tratado como detalhe.

O que está em jogo é algo mais amplo: a substituição progressiva de referências concretas por versões mais difusas, abstratas ou reinterpretadas. Primeiro, ajusta-se a linguagem. Depois, revisam-se os símbolos. Em seguida, naturaliza-se a mudança, como se fosse apenas mais um passo inevitável de evolução cultural.

A reação pública tem funcionado como um freio parcial a esse processo. A resistência observada em casos recentes indica que há limites para aquilo que a população está disposta a aceitar passivamente. E esses limites não parecem estar sendo devidamente considerados.

Ignorar esse sinal é mais do que um erro de comunicação. É um indicativo de desconexão entre quem propõe as mudanças e quem é diretamente afetado por elas. Trata-se de uma disputa silenciosa, mas persistente, sobre quem define os símbolos — e, consequentemente, a própria identidade coletiva.

Sabe-se, agora, que a empresa retrocedeu na ideia depois da forte reação do público, especialmente dos torcedores do esporte mais alienante do planeta. Mesmo sendo uma alteração sutil e quase imperceptível, ela processaria subliminarmente, e sorrateiramente, a eliminação do símbolo original na mente, corroendo, então, a identidade.

Pode parecer apenas um detalhe em um uniforme. Mas, como a história e a literatura já demonstraram, raramente é só isso.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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