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sábado, abril 4, 2026

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A guerra identitária

Marcos Machado

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Nada é por acaso, quase nada é coincidência, e nem tudo pode ser descartado como teoria conspiratória. A história das sociedades humanas mostra que padrões se repetem — às vezes com novas roupagens, mas com a mesma lógica de fundo. Na Antiguidade, estrategistas como Sun Tzu apontavam que a fragmentação interna de um povo é um caminho eficaz para enfraquecê-lo. A conhecida ideia de “dividir para conquistar”, ainda que não formulada literalmente em A Arte da Guerra, tornou-se um princípio recorrente na análise do poder.

O cenário contemporâneo levanta uma questão incômoda: por que, justamente em um período de ampla circulação de informação e de consolidação de direitos civis, as sociedades parecem cada vez mais fragmentadas em identidades concorrentes? Termos como “misoginia”, “racismo estrutural”, “transfobia” e outros deixaram de ser apenas categorias analíticas e passaram a funcionar como instrumentos de mobilização política e social.

O problema central está na forma como certas agendas passaram a ser conduzidas. Em vez de buscar a universalização de direitos, parte dos movimentos identitários tem operado na lógica da segmentação: grupos específicos reivindicam prerrogativas particulares, frequentemente colocadas acima de princípios universais que deveriam reger toda a coletividade. O resultado é a substituição da igualdade perante a lei por uma espécie de hierarquia moral entre identidades.

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O discurso do vitimismo ganha protagonismo. A condição de vítima deixa de ser apenas uma circunstância a ser superada e passa a ser, em alguns casos, um ativo político. Quanto maior a percepção de opressão, maior o poder de reivindicação. Essa dinâmica cria um incentivo perverso: em vez de promover autonomia e responsabilidade individual, reforça-se a dependência de reconhecimento externo e a permanente sensação de injustiça.

O filósofo Michel Foucault já argumentava que o poder se manifesta na construção de discursos e narrativas. No cenário atual, isso se traduz na disputa por autoridade moral: quem define o que é opressão, quem legitima a dor, quem estabelece os limites do aceitável. A linguagem deixa de ser um meio de comunicação para se tornar um campo de batalha simbólico.

Críticos da política identitária, como Jordan Peterson, alertam para o risco dessa fragmentação. Segundo essa perspectiva, quando o indivíduo é reduzido à sua identidade de grupo — seja ela racial, de gênero ou de orientação sexual —, perde-se a noção de indivíduo como sujeito autônomo. O diálogo se deteriora, pois cada grupo passa a reivindicar uma autoridade moral própria, muitas vezes incompatível com a dos demais.

Autores como Judith Butler defendem que as identidades são construções sociais e que questionar estruturas tradicionais é necessário para ampliar a liberdade. Essa visão, quando levada ao extremo, pode contribuir para uma instabilidade permanente, na qual nenhuma referência comum se sustenta por muito tempo.

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O ponto crítico não é o reconhecimento das diferenças, mas a sua instrumentalização. Quando direitos passam a ser reivindicados sem a contrapartida de deveres, e quando a identidade de grupo se sobrepõe ao interesse coletivo, cria-se um ambiente de tensão constante. A sociedade deixa de ser um espaço de cooperação e passa a funcionar como um mosaico de disputas.

A própria tradição ocidental já alertava para esse risco. Em passagens bíblicas, como no Evangelho de Marcos (3:25), encontra-se a advertência de que uma casa dividida contra si mesma não subsiste. Não se trata de um argumento religioso, mas de uma constatação sociológica: a coesão é um elemento essencial para a estabilidade de qualquer comunidade.

Pensadores como Thomas Hobbes também observaram que o excesso de conflito interno pode abrir caminho para formas mais autoritárias de poder. Quando a sociedade perde sua capacidade de diálogo e de cooperação, cresce a demanda por uma autoridade que imponha ordem — ainda que à custa de liberdades individuais.

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A crítica às bandeiras identitárias não deve ser confundida com a negação de direitos ou com insensibilidade às injustiças. Trata-se, antes, de questionar um modelo que, ao enfatizar excessivamente as diferenças, corre o risco de corroer aquilo que torna a convivência possível: a ideia de que, independentemente de características individuais, todos estão submetidos às mesmas regras e compartilham responsabilidades comuns.

Uma sociedade que abandona o princípio da universalidade em favor de privilégios segmentados não se torna mais justa — torna-se mais instável. E uma sociedade instável, como a história demonstra repetidamente, é terreno fértil para conflitos, rupturas e, em última instância, perda de liberdade.

O desafio contemporâneo não é escolher entre identidade e coletividade, mas impedir que a primeira destrua a segunda. Porque quando tudo se fragmenta, não sobra diversidade — sobra apenas desagregação.

*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade

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