Marcos Machado
Dante Alighieri, em sua obra “A Divina Comédia”, sentencia com severidade aqueles que se omitem: “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.” Essa afirmação, longe de ser apenas uma construção literária, ressoa como uma profunda reflexão sobre a responsabilidade moral do indivíduo diante do mal.
A razão para tal condenação é simples e clara: a omissão diante do mal não é uma posição neutra, mas sim uma cumplicidade disfarçada. Quem se cala, consente; quem se abstém de agir contra as injustiças, colabora tacitamente com elas. Omissão é cumplicidade. É o que dizia Edmund Burke: “Tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.”
O omisso é pior do que aquele que se manifesta claramente pelo mal, pois ao menos o inimigo declarado deixa claro de que lado está e permite que se preparem defesas contra ele. O omisso? O omisso é o traidor silencioso, aquele que assiste ao avanço do mal de braços cruzados, enquanto se justifica com pretextos covardes. Como disse Jesus: “Quem não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mateus 12:30). E ainda: “Porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse 3:16).
A neutralidade, longe de ser virtude, é a mais sórdida forma de covardia
Inocentes sofrem perseguição, condenações sem crime, enquanto a maioria complacente observa e alguns se deleitam no sofrimento dos injustiçados, comemorando sua ruína. Esses últimos já optaram pelo mal. Mas, e os neutros? Os que fingem imparcialidade? Serão cobrados com ainda mais rigor, pois, como advertiu Aristóteles, “a pior forma de desigualdade é tentar fazer iguais coisas que são diferentes”. A neutralidade, longe de ser virtude, é a mais sórdida forma de covardia.
A mensagem de Dante parece ecoar um princípio já estabelecido na tradição cristã. No evangelho de Tiago, está escrito: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17). Esse versículo evidencia que a responsabilidade de um cristão ou de qualquer pessoa de bem não se limita à prática direta do bem, mas também à recusa da indiferença. A ausência de reação à injustiça é uma forma de mal em si mesma. São Tomás de Aquino já ensinava que “a omissão do bem é um pecado ainda mais grave do que a prática do mal em si, pois é a recusa deliberada da ordem moral estabelecida por Deus”.
Martin Luther King Jr., durante sua luta incansável contra o racismo e a segregação, reforçou essa ideia ao afirmar: “Não tenho medo do barulho dos maus, tenho medo do silêncio dos bons.” Essa declaração expõe uma verdade dolorosa: o mal prospera não apenas por aqueles que o praticam ativamente, mas principalmente pelo silêncio e inércia daqueles que poderiam impedi-lo. Como já dizia Soljenítsin, “viver sem mentiras” é o primeiro passo para resistir ao totalitarismo e à corrupção da alma.
A responsabilidade moral é individual e intransferível. O título que se carrega – seja de padre, pastor, deputado, senador, juiz, ou promotor, ou qualquer outra posição de influência – não isenta ninguém do julgamento moral que a história e a própria consciência impõem. No fim, importa menos o cargo ou a posição que se ocupa e mais a coragem de se posicionar contra o que está errado.
A omissão não apenas condena aqueles que a escolhem, mas também permite que o mal se fortaleça e se perpetue. Diante da injustiça, suas vítimas não precisam de espectadores, mas de protagonistas. A história não se lembrará com respeito daqueles que se abstiveram de lutar contra ela, mas sim daqueles que ousaram fazer a diferença. Como alertava Platão, “o castigo dos bons que não fazem política é serem governados pelos maus”.
No juízo final, não será a posição social ou a religião que determinará o destino de cada um, mas sim as escolhas feitas diante da injustiça. O inferno pode não ser literal para alguns, mas a condenação da consciência é inescapável para aqueles que, podendo agir, escolheram o silêncio.
Haverá choro e ranger de dentes, mas não será dos que sofrem com a injustiça agora…
Arrependei-vos enquanto há tempo!
Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, analista sensorial, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira